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A TEIA EM QUE SE TRANSFORMOU O RESULTADO DA SCHÜTZENFEST

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“Se até uma festa de igreja dá lucro, porque esta não deu?”, questionou o vereador Ademar Winter (PSDB) ao secretário de Cultura, Turismo e Esporte da Prefeitura de Jaraguá do Sul e presidente da Comissão Central Organizadora (CCO) da 21ª Schützenfest, Ronaldo Trajano Raulino, e aos demais envolvidos na organização da festa, como a empresa contratada para a produção da mesma, a Fábrica de Shows; e a Associação das Sociedades de Tiro do Vale do Itapocu.
A pergunta do vereador tucano foi uma das dezenas dirigidas aos organizadores da festa pelos vereadores, na tentativa de entender o que aconteceu com as contas da Schützenfest, depois que em reunião na Associação Empresarial de Jaraguá do Sul (Acijs), na segunda-feira, o secretário anunciou déficit de cerca de R$ 450 mil.
Após o debate de mais de duas horas, em que também o vereador Lorival Demathê (PMDB) questionou o que chamou de “sujeira” que ficou arranhando a imagem da cidade e o brilho de uma festa tão bem organizada, lamentando que apesar de todos os bailes promovidos pelas sociedades de tiro serem bem sucedidos a festa tenha tido este resultado, o que se tem certeza é que a resposta está longe de ser dada, pois as contas não estão fechadas e os números são bastante contraditórios.
Os vereadores decidiram promover a reunião com os envolvidos na festa na tarde desta sexta-feira a pedido, segundo informou o presidente Jean Carlo Leutprecht (PC do B), dos vereadores do DEM, o líder de governo Ademar Possamai, que por outros compromissos foi o único ausente, e José Osorio de Avila. Eles haviam sugerido que o secretário fosse convidado para uma sessão ordinária, mas como a pauta das sessões está bastante carregada, optou-se por um encontro em que todos os envolvidos na festa foram convidados, para que as dúvidas que surgiram em torno da prestação de contas pudessem ser esclarecidas e se construísse um processo transparente em torno da 21ª Schützenfest.
Depois da reunião, o presidente Jean destacou que a intenção dos vereadores é buscar oficialmente todas as informações, como número de público exato, consumo de chope, aluguéis, bilheterias de shows e confrontar com as despesas apresentadas. Reiteradamente na reunião o secretário Ronaldo Raulino, que em determinado momento chegou a acusar os vereadores de terem “armado um circo” ao convocarem o encontro, bem como o representante da Fábrica de Shows, José Gentil Medeiros, se comprometeram em entregar toda a documentação necessária à Câmara se a mesma for pedida por meio de ofício.
Jean esclareceu ao secretário que em nenhum momento os vereadores sugeriram encontro fechado e vários deles reforçaram ao secretário que ao buscarem informações estão atendendo a um apelo público e exercendo sua função de legislador. O presidente disse que se depois de analisados todos os documentos os vereadores acharem necessário, aí sim o Legislativo poderá instalar uma Comissão Especial de Investigação (CEI).
A empresária Maria Madalena Espíndola, proprietária da Distribuidora de Bebidas Príncipe de Joinville, distribuidora da Ambev, era uma das pessoas mais irritadas na plateia. Madalena cobra do secretário, com quem diz ter negociado pessoalmente, uma fatura de quase R$ 400 mil pelo fornecimento de chope, água e refrigerantes durante toda a festa. Ela recebeu até o momento R$ 30 mil e não sabe quando receberá o restante.

[b]SOCIEDADES CONVENCIDAS A PARTICIPAR[/b]

O secretário Raulino recordou todo o processo que se iniciou em março para organização da festa, desde o desinteresse em promover a festa, manifestado pelas associações de tiro, em função do que classificou como descaso promovido por administrações anteriores, em que ano a ano eram computados prejuízos. Depois de muito diálogo e exposição de um projeto, conforme ele descreveu e depois o representante das sociedades e suplente de vereador Celso Hille confirmou, a associação aceitou organizar a festa.
“Que fique claro que esta festa pertence às sociedades de tiro e esta marca é de detenção pública, da Fundação Cultural”, destacou. Disse que ao apresentar o projeto avisou que a festa – com shows nacionais, uma banda alemã e 26 bandas regionais – custaria mais de R$ 2 milhões. “Sabíamos o quanto iríamos faturar com bebidas e ingressos e que a contrapartida viria desta empresa, a Fábrica de Shows, que viria com o compromisso de trazer R$ 800 mil e que, se desse lucro, 50% seria da empresa e 50% das sociedades”.
O secretário disse ter certeza de que foi feita a maior Schützenfest da história, mas acha que se desse lucro acredita que alguém também reclamaria, pois diria que ele seria levado para a cidade de Tijucas, onde fica a empresa. Segundo ele, o que deu o déficit foi o fato de que havia promessa de uma emenda parlamentar de R$ 100 mil do senador Raimundo Colombo (DEM) – a Câmara já aprovou projeto neste sentido.
Também isentou o secretário de Desenvolvimento Regional, Lio Tironi, negando que tenha dito que ele não teria se comprometido com a festa, pois diz que havia promessa de dinheiro estadual vinha da cota central de Florianópolis, e que foi feito o projeto para captação de recursos.
“Fizemos uma festa sabendo o que iríamos faturar, mas tivemos custo de R$ 2.000.081,00 e faturamos R$ 1.630.000,00. Me causa estranheza de que nos últimos quatro anos aprovei na condição de vereador dinheiro para pagar Schützenfest realizada e em nenhum momento veio este movimento. Agora uma festa que faz bonito, a empresa gestora assume o compromisso de liquidar com os credores, e se faz este estardalhaço, eu não estou pedindo um centavo de dinheiro público, mesmo porque sei que não pode”.
Ele negou que os shows tenham sido superfaturados. E acusou gestões anteriores de terem gastado R$ 300 mil com aniversário da cidade e show gospel de R$ 52 mil. E apelou: “É hora de nos unirmos e ajudarmos esta empresa que veio para nos ajudar do que ficar fazendo picuinha política de uma coisa que jogaram no chão… Não me venham falar em austeridade”.
Depois, voltou a dizer que o contrato é entre as sociedades de tiro e a empresa e que a Prefeitura entrou como uma grande apoiadora, pois não poderia ser a organizadora. E garantiu que se as suspeitas de superfaturamento forem comprovadas, pega seu chapéu e vai embora. O secretário também não poupou críticas ao governo do Estado, dizendo que ele não olha com o mesmo carinho ao município como olha para os outros.
O representante contratado da empresa de eventos, contador José Gentil Medeiros, disse que a prestação de contas é parcial porque ainda tem recursos do governo e patrocinadores que não foram recebidos. Raulino complementou que são quatro partes envolvidas na prestação de contas: a Prefeitura, “de abelhuda”, a Fábrica, a associação e a Blucredi. E que quando as contas fecharem, como o prazo contratual já venceu, aguarda a emenda de Colombo, os R$ 65 mil acenados pelo governo do Estado e mais umas pendências de quem alugou camarotes e pegou chope e não pagou, para fechar as contas. Ele calcula que isso pode demorar ainda cerca de dez dias. E se responsabiliza por toda a gestão financeira.

[b]IMPASSE NA BUSCA DE RECURSOS PÚBLICOS[/b]

O secretário Tironi confirmou que acompanhou o pedido direto ao Estado de R$ 824 mil, mas disse que em nenhum momento os conselheiros acenaram com esta verba. Ele mesmo chegou a interceder junto ao secretário de Estado Gilmar Knaesel. Mais tarde, o governador Luiz Henrique da Silveira autorizou o valor de $ 65 mil do Estado. Está à disposição, bastando para isso o instituto que pediu a solicitação apresentar negativas e documentação. Ele também apresentou os números destinados pelo Estado às festas catarinenses, para mostrar que o valor destinado à Schützen não destoa das demais.
Hille confirmou a informação do secretário Raulino, de que as sociedades tinham decidido deixar a promoção da festa de lado, porque tinham receio por causa de recursos prometidos que nunca vinham. Apresentou várias atas de reuniões onde esta decisão estava sendo amadurecida, apesar de ser dado o andamento às competições de tiro e escolha da rainha. Quando o vereador Winter questionou que recursos seriam estes, ele apenas informou os R$ 100 mil federais prometidos por Colombo.
Hille também entrou em contradição com Raulino quanto à distribuição dos recursos. Enquanto o secretário reiterava que seriam 50% para as sociedades e 50% para a Fábrica, ele dizia que seriam inicialmente 50% para a Fábrica, 30% à Fundação Cultural e 20% às sociedades. Depois, disse que o índice mudou para 30% às sociedades e 20% à Fundação. Ele disse que até o momento, o que 11 sociedades receberam foram R$ 1.530,00 da exploração de um estacionamento que não tem nada a ver com a festa. Se os R$ 100 mil federal vierem serão divididos em 17 partes – para a associação e para 16 sociedades.
Disse ainda que tradicionalmente era a associação quem presidia a festa, mas neste ano o secretário Raulino assumiu a presidência da Comissão Central Organizadora (CCO). “Então, a associação não organizou a festa, nós fomos parceiros dentro do que queríamos, assumimos desfiles, tiros e a venda de souvenirs”.
O presidente da Fundação Cultural, Jorge de Souza, explicou que o envolvimento do órgão se deu somente por meio de repasse de R$ 150 mil para a Fábrica de Shows, a instalação de uma piscina de bolinhas e a cedência de marca.
O deputado estadual Carlos Chiodini (PMDB) também foi bastante contundente. Ele disse que entende que o mérito não deve ser se deu lucro ou não, ou se veio patrocínio ou não. A grande preocupação, alertou, é saber quem é o dono da festa. “Quem vai ficar com o ônus. O bônus a Prefeitura já tomou conta, de ser uma grande festa. Mas e o ônus? Em que porta vão bater os credores?”, questionou, informando o nome da empresária Madalena, que disse a ele que até o momento desconhecia a atuação da Fábrica e negociou no “fio do bigode”.
Fornecedora tradicional da festa, Madalena disse que nunca enfrentou situação deste tipo. E garante que os pedidos de bebida e a ordem de recebimento do chope eram feitos por uma funcionária da Prefeitura. Raulino argumenta que a tal funcionária, que se chamaria Luciana, seria coincidentemente servidora, mas agia na condição de membro da CCO. O secretário também tentou desqualificar a fornecedora dizendo que não negociou com ela, mas com a Ambev de Florianópolis.
Madalena confirmou que como representante da região, o fornecimento foi repassado a ela. Ela argumentou que em determinados momentos não falou diretamente com ele porque estava em um congresso internacional da Ambev, mas estava representada pelo diretor Carlinhos.

[b]DEPUTADO COBRA POSTURA E SECRETÁRIO SE IRRITA[/b]

Por fim, irritando profundamente o secretário Raulino, o deputado disse que é prerrogativa do Legislativo exercer uma investigação e cobrou dos vereadores a instalação de uma comissão de investigação. “Se esta Casa não tomar uma iniciativa, em nome da ética eu levarei isso a frente seja no Ministério Público ou as câmaras competentes”, decretou.
“Se estamos aqui é porque fomos cobrados pela comunidade”, manifestou-se a vereadora e professora Natália Lúcia Petry (PSB). Na condição de ex-presidente da Fundação Cultural, ela admitiu que apesar dos recursos escassos em sua gestão planejava a festa dentro de um orçamento compatível. “Que eu lembre nunca deu prejuízo, até sobrava uma quirela para ser dividida entre as sociedades”.
Natália lembrou a importância de manter a tradição do tiro e as tradições germânicas. “Participei até 2007, movimentamos 87 mil visitantes”, pontuou. E disse que em sua gestão gastou R$ 300 mil no aniversário do município, mas não em um dia, mas sim em quase um ano. “Foi uma comemoração de um ano inteiro, com uma programação ampla”.
Natália recordou empresa jaraguaense que está por receber R$ 238 mil e que por isso está comprometendo sua trajetória de 15 anos. “Acreditamos que este momento possa ser para dar o fim ou o começo se os vereadores assim o entenderem. Como vereadora não foi deixar de cumprir meu papel de fiscalizadora”. Ela também cobrou o fato de que apenas duas sociedades receberam subvenção social e as demais receberiam na festa e não veio.
Ao responder o questionamento sobre o resultado negativo da festa, feito pelo vereador Lorival Demathê, o representante da Fábrica também argumentou que os custos são fixos para receber até 200 mil pessoas e um evento destes tem risco de não ter público ou ainda sofrer com o mau tempo, por exemplo. Ele informou que no show da terceira idade foram 18 mil não pagantes, mais dias para crianças e dias de entrada franca, destacando o que classificou como função social do evento.
“A prestação de contas é parcial, estamos legitimando as dívidas, porque alguns fornecedores não nos apresentaram a nota fiscal. Se por algum motivo existe esta mancha pode ser por maldade, de alguém que não tem noção do que é esta festa”. Medeiros garantiu que não deixará a cidade antes de tudo estar resolvido e garantiu que sabe de sua responsabilidade “até o ponto que as dívidas forem legitimadas”.
O vereador Jaime Negherbon (PMDB) reforçou o pedido a Medeiros para que todos os números da festa, os mais detalhados possíveis, sejam repassados. E garantiu que assim que a dívida com os fornecedores estiver consolidada vai fazer o relatório completo. O público não entendeu como tendo supostamente R$ 100 mil para receber de verba federal (emenda Colombo) e R4 65 mil do Estado, mais alguns aluguéis de camarotes, a empresa conseguirá pagar os quase R$ 400 mil devidos para a fornecedora de bebidas e mais para empresa local que precisa receber R$ 238 mil, entre outros.
O vereador José Osorio entende que o Estado deveria ter destinado mais recursos, ele considerou a posição do secretário Raulino muito transparente, mas explicou a ele que a promoção da reunião tem o objetivo de esclarecer a comunidade.
Amarildo quis saber de Hille como se organizavam as reuniões em torno da festa, que comandava as equipes. Como o presidente da CCO era o senhor Ronaldo, todas as reuniões eram encabeçadas por ele, e a festa foi tomando rumo. Sabíamos das dificuldades, mas a festa teve um êxito diante da comunidade… trazendo público jovem ou idoso, só que sabendo do déficit e deste ponto de interrogação… E como eu disse não foi a associação quem organizou, mas fomos parceiros”.

[b]FORNECEDORA DE BEBIDAS COBRA R$ 367 MIL[/b]

Winter foi direto: Senhora Madalena, quem garantiu o pagamento à senhora? A senhora não tem contrato com a Fábrica? A fornecedora apontou Raulino e disse que nunca assinou contrato com a empresa. “Tratamos com a Ambev Florianópolis, que depois trouxe seu Carlinhos (diretor da Príncipe)”, reforçou o secretário, desfiando uma série de serviços que a empresa teria se comprometido a fornecer e não teria cumprido, como fornecimento de chope a granel e não enviar barris de 30 litros.
Raulino disse que não pagou à fornecedora durante a festa porque ela não teria aberto conta na Blucredi. Ela disse que abriu sim e nesta conta recebeu R$ 30 mil, tendo R$ 367 mil para receber. Winter pediu o nome da outra empresa lesada, mas Natália preferiu não divulgar porque o empresário foi convidado e não compareceu.
“Quem presta serviço tem que receber, isso é óbvio, e por mais que o senhor José Gentil tem caráter social, entendo que a empresa é privada e penso que vocês têm que receber, mas existe esta dúvida, pois uma hora o secretário diz que não tem nada a ver com a gestão financeira e depois se exime”, reforçou o líder da bancada do PT, Francisco Alves.
O vereador lembrou que uma destas contradições está nos tais R$ 100 mil de Colombo, que Hille disse que seria distribuído pelas sociedades de tiro, e em outro momento a Fábrica diz contar com este dinheiro para pagar fornecedores. Jean disse que este dinheiro, conforme abertura de crédito aprovado na Casa, não poderá entrar no caixa da empresa.
Por fim, depois de duas horas de debates, os vereadores esperam agora as informações e documentos por escrito para definir que providências tomarão. E Gentil disse que espera que o caixa possa zerar.
Os vereadores se reunirão novamente na semana que vem para decidir os encaminhamentos.

Por Rosana Ritta